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Apagão da Inteligência
Por Luciano Martins Costa em 12/11/2009
Comentário para o programa radiofônico do OI, 12/11/2009
A interrupção do fornecimento de energia elétrica que deixou no escuro mais da metade do país na noite de terça-feira (10/11) produziu um apagão geral também na imprensa e nos principais protagonistas da política nacional.
Desde o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, até os comentadores polivalentes que pululam na mídia, sempre dispostos a pontificar sobre qualquer coisa, contam-se aos montes as declarações sem sentido, análises sem pé nem cabeça e tentativas de manipulação de um episódio cujas causas reais ainda não estavam claras nas edições dos jornais de quinta-feira (12).
Oficialmente, a pane foi causada pelo mau tempo. Um raio teria desativado o sistema de transmissão na cidade paulista de Itaberá, provocando o efeito dominó que derrubou a rede interligada por grande parte do país. Os técnicos também investigam a ocorrência de um raio sobre um transformador numa estação de Furnas, no município de Mogi das Cruzes.
No festival de desencontros, o ministro das Minas e Energia tentou desviar o foco do sistema de distribuição. Afinal, Furnas pertence à cota de cargos do PMDB, do qual Edison Lobão é um dos luminares. Como os dois incidentes ocorreram no estado de São Paulo, houve também quem tentasse jogar a origem do problema no colo da Cesp.
Informação e especulação
Em meio às evidências de que ocorreram tempestades com fortes descargas elétricas junto às torres de transmissão, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) vai na contramão das explicações oficiais. Segundo técnicos do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe, o instituto não detectou descargas elétricas próximas às linhas de transmissão na região de Itaberá. No entanto, a reportagem do Estado de S.Paulo localizou pelo menos uma testemunha de que fortes raios perto da linha de transmissão coincidiram com o início do problema.
O que se leu e ouviu nas 24 horas seguintes ao incidente caberia num festival de besteiras capaz de orgulhar o lendário Stanislaw Ponte Preta. A política contaminou as discussões técnicas e a imprensa não soube – ou não quis – separar informação de especulação.
Tudo indica que, junto com a eletricidade, o Brasil sofreu também um apagão de inteligência.
Uma questão grave
É bem provável que a politização do problema energético acabe por dissimular a questão central: o modelo brasileiro de produção e distribuição de energia é adequado para as dimensões do país e suas características demográficas? Quais são os outros riscos a que a população pode estar submetida, além da falta de energia?
Essas e outras questões vêm sendo debatidas em seminários e encontros setoriais há anos, praticamente sem cobertura da chamada grande imprensa. Decisões importantes são tomadas sem que a sociedade tenha a oportunidade de se informar a respeito de todas as alternativas.
Uma coleta cuidadosa no noticiário sobre o apagão desta semana permite observar que incidentes desse tipo são muito comuns por todo o mundo. Nos Estados Unidos e na Europa, tempestades de neve costumam interromper o fornecimento de energia, com blackouts que podem durar dias.
O problema não está na ocorrência, praticamente inevitável, mas na sua extensão e frequência.
Estado de alerta
Ainda com base no que publica a imprensa desde quarta-feira, é preciso levar em conta também que as mudanças climáticas deverão tornar ainda mais vulneráveis as grandes redes de transmissão interligadas, por causa da previsão de tempestades mais freqüentes e cada vez mais intensas. A ocorrência de raios deve aumentar 18% no território brasileiro nos próximos dez anos, conforme lembra o Globo.
Finalmente, convém também destacar a oportunidade da crise para informar a sociedade sobre outras vulnerabilidades do setor de geração e distribuição de energia do Brasil. Talvez seja hora de ouvir as vozes dos especialistas que defendem há anos a busca de fontes alternativas mais eficientes e seguras. Paralelamente, cabe a discussão do modelo de desenvolvimento, excessivamente concentrado nas grandes cidades do sudeste do país.
Por outro lado, convém observar que o apagão prolongado trouxe a evidência de um risco adicional: segundo a Folha de S.Paulo, as usinas nucleares Angra 1 e Angra 2 entraram em alerta pela primeira vez na noite de terça-feira (10), porque não havia energia para o sistema de resfriamento dos reatores.
A questão é séria demais para a imprensa ficar dando espaço a picuinhas de políticos ociosos.
Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=563IMQ006
Um pouco sobre CPI (da Petrobras em especial)
Os partidos de oposição deixaram a CPI da Petrobras hoje. No gabinete da liderança do PSDB, os senadores Antonio Carlos Magalhães Junior (DEM-BA), Álvaro Dias (PSDB-PR) e Sérgio Guerra (PSDB-PE) explicam para a imprensa o motivo da saída. Minoria na Comissão, os parlamentares argumentam que estariam participando de uma farsa.
Dado os fatos, algumas considerações:
Governos e oposições tentam sempre controlar CPIs, na maioria dos casos, os governos conseguem. CPI da Petrobras e a CPI da Corrupção aqui no Rio Grande Sul são exemplos recentes, mas nunca vi oposição nenhuma se retirar de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. O que eu já vi, e muito, foi bancada governista não participar para não ter quorum.
A Petrobras é acusada de, em uma manobra fiscal, deixar de recolher mais de R$ 4 bilhões aos cofres públicos. A questão é controversa, teria a empresa agido de forma ilegal ou o a manobra da Petrobras e de outras mais de mil empresas no Brasil foi legal, justificada pelo momento de crise da economia mundial? Especialistas dividem-se nas respostas. Independente disso, é questão a ser investigada, como, aliás, deve ser qualquer CPI.
O uso político da CPI é inegável e faz parte do jogo, infelizmente. Mas não vejo no PSDB e no DEM qualquer moral a respeito da Petrobras. Quando governo, esses partidos venderam (em uma operação que até hoje pairam muitas dúvidas) a preço de banana a hoje lucrativa Vale do Rio Doce e tentaram a todo custo vender a Petrobras. A Petrobras é hoje a 4ª empresa mais respeitada no mundo, disparada a maior financiadora cultural no Brasil, e a maior empresa em exploração de petróleo em águas profundas, com tecnologias que nenhuma outra companhia possui. Isso não isenta de prestar contas à sociedade Brasileira, mas que moral teria os baluartes do entreguismo para cobrar isso?
A Petrobras é um exemplo de que empresa com controle majoritariamente estatal que pode dar certo, se a Vale e a Petrobras eram empresas que davam prejuízos ao Estado brasileiro no governo FHC, a culpa era do mau gerenciamento e do descaso, mas não do fato de serem empresas públicas. Há suspeita de irregularidades na empresa que devem ser analisadas, porém desde o começo, a oposição tenta usar politicamente o fato e o governo tenta abafar de todas as maneiras as supostas irregularidades, se a CPI morreu a culpa é deste processo torto de como surgem as CPIs no Brasil.
O Diabo Obama
Já havia escrito em meu antigo blog sobre Barack Obama. Dizia que até gostava do então presidente eleito dos EUA, mas preferia ele antes da Obamania que tomou conta do mundo durante a campanha. Acreditava, de verdade, que Obama não tentaria realizar grandes mudanças. Porém o presidente usou sua popularidade para tentar emplacar um pretencioso e salutar projeto de reforma na saúde do país.
Foi o estopim de um verdadeiro clima de guerra cívil nos EUA, e marcou a volta da direita reacionária, tão hostilizada pela sociedade no governo conservador e bélico de George Bush.
Muitos americanos ainda parecem acreditar nos mitos anti-comunistas pregados durante a guerra-fria, é como se o senador Joseph McCarthy ainda estivesse pregando a suas ideias entre nós. Esses dias a CNN mostrou um pastor de um estado sulista pedindo a Deus que Obama morra de Câncer.
A proposta, que tem incomodado os “estúpidos homens brancos”, nada mais é que uma reforma no sistema de saúde, uma adaptação da realidade liberal norte-americana ao estado de bem-estar social à moda européia.
No momento em que o mundo caminha cada vez mais na direção do estado mínimo, Obama propõe o caminho contrário, e no berço do neo-liberalismo. Não deve ser fácil para Obama convencer “uma nação de idiotas” de que seu projeto não tem nada de comunismo. Na verdade, Obama é um político no estilo europeu, diria até que um social-democrata. O presidente Clinton tinha um projeto parecido, mas não conseguiu vencer a barreira imposta pelos conservadores, barreira apoiada pelos planos de saúde e pelos hospitais particulares.
Nos EUA, 50 milhões de pessoas não possuem nenhum tipo de amparo. Para refrescar a memória, lembrem-se do Furacão Katrina em 2005. Negros suburbanos desamparados pelo governo norte-americano, o poder público sem estrutura para atender aos desabrigados e até Fidel Castro oferecendo ajuda médica ao governo Bush.
A classe média americana é temerosa de um aumento nos impostos, porém não se duvida que o sistema terá qualidade, é assim em todos os outros países desenvolvidos do mundo. Entende-se o temor das seguradoras, o que não se entende é o temor de uma parte conservadora da sociedade americana, com um discurso tão deslocado do tempo histórico e sem o menor senso de realidade.
P.S: para melhor enterder algumas referência do texto, indico o livro Stupid White Men – Uma nação de idiotas, de Michel Moore.
Delícias do privatismo
Texto de Luiz Gonzaga Belluzzo, publicado originalmente em Outubro de 1997 e republicado em 01/07/2009
“Foi comovente a luta do Deputado José Aristodemo Pinotti para impedir que rolo compressor dos bancos das empresas e do governo aprovassem a abominável lei que regulamenta os chamados planos de saúde. Tão comovente quanto repulsiva a cena em que o outros deputados comemoravam a vitória dos mercadores da desgraça humana.
A grande imprensa saudou a aprovação da lei como uma vitória dos usuários. Mas a verdade é que, nas palavras do deputado Pinotti, “o projeto exclui tudo o que é caro nos tratamento das doenças mais graves”. Ou seja, a saúde do cidadão está entregue aos critérios do lucro privado.
Há quem diga que esta é a conquista suprema da raça humana e tudo o que existe ou está para existir deve sucumbir ás normas do ganho monetário. Alguns brasileiros, da classe média para cima vêm tentando transformar este axioma em orientação para a vida prática. Não é de hoje que tentam safar a onça entregando a sua saúde e de seus filhos à iniciativa dos privados. Não apenas a saúde mas também a educação, a segurança, a aposentadoria, etc..
É claro que o repúdio desta gente à saúde pública , à escola pública, à segurança pública é um gesto de diferenciação, de distinção em relação aos de baixo , uma espécie de grife que os identifica como consumidores de bom gosto em oposição à rafaméia que se veste com andrajos sem qualidade. A grande vantagem desta atitude é que, de quebra, fica justificado o descumprimento das obrigações fiscais, ensejando esta espécie de anarquismo de remediados. Há fortes evidências, neste momento, de que, salvo para os de cima, a experiência foi desastrosa.
Os mitos em que apreendeu a acreditar impedem o cidadão remediado de avaliar as verdadeiras razões de seus percalços. Para ele, o indivíduo é o único responsável por suas desditas. Se quebrou a cara é porque não teve competência para fazer melhor, não soube vencer os competidores, nem ultrapassar as suas circunstâncias. O seu individualismo é tão visceral, tão patológico e tão tragicamente cômico, que é tambem essencial para a reprodução de uma sociedade que funda a sua justificação moral na “sobrevivência do mais forte”.
Sobrevivem realmente os mais fortes, mas os mais fortes são mais fortes há muito tempo e o resultado da luta competitiva só pode ser a dizimação dos incautos que se julgavam aptos a concorrer. É verdade que alguns conseguem se agarrar à espaçonave que arranca em alta velocidade. Mas a maioria se estatela no chão duro.
Os planos de saúde, a escola privada, estes pesadelos não foram ainda suficientes para ensinar às vitimas do individualismo as lições da vida. Faltam ainda os ensinamentos da previdência privada. Mas ele não tardarão. Assim, desde as crianças até os velhos, passando pelos de idade adulta, todos poderão provar das delícias do privatismo.”
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=4454