Greves e algumas considerações
É bom ressaltar que o texto que escrevo aqui é uma opinião pessoal e não uma opinião do DCE da UFSM, embora eu faça parte da gestão. Necessário também dizer que o texto não tem a pretensão de ser uma análise de conjuntura da greve ou do Movimento Estudantil, longe disso, para isso seria necessário um texto bem mais denso em teorias, não é objetivo agora.
Acompanhei ontem a Assembleia Docente na UFSM. Talvez algo lógico e que eu nunca havia me dado por conta é quem são os professores que estão na linha de frente do processo de mobilização pela categoria docente, independente de greve ou não. Os professores que ontem votaram por intensificar a mobilização são os mesmos professores que estão sempre em luta pela educação, independente das divergências políticas entre eles. No tempo que eu estou na diretoria do DCE, são os mesmos e poucos professores com quem os estudantes sempre puderam contar para a defesa de nossas pautas e para a construção de uma universidade diferente, mais democrática, mais participativa e mais voltada para a transformação social. Nomes como Clóvis Guterres, em que a história pessoal fala por si, e mesmo professores mais jovens, mas igualmente de muita luta e sabedoria, como o professor Diorge Konrad e o professor José Luiz de Moura Filho (Zeca)
Em relação a greve dos servidores tínhamos uma situação em que houve uma greve deflagrada numa conjuntura interna do movimento sindical da categoria de divisão sobre as forma de luta, divisão a nível nacional e refletida em Santa Maria. Quando foi levada a questão ao Conselho de DAs, o DCE firmou a posição, e disso não se pode abrir mão, de que a greve é um direito. Se começarmos a questionar o direito de greve pensando apenas na nossa comodidade, vamos percorrer um caminho muito perigoso, caminho que os Estados Unidos escolheu e hoje enfrenta grande crise onde os trabalhadores não tem direito algum. Uma boa indicação de leitura é o Trinta anos atrás hoje: o dia em que a classe média morreu, do escritor e documentarista Michel Moore.
Porém era uma greve onde a maioria dos estudantes via apenas serviços como RU e Bibliotecas fechados ( serviços e direitos, afinal a Assistência Estudantil é um direito tanto quanto o direito de greve de qualquer trabalhador, por mais que alguns gestores públicos tendem a considerar um mero favor aos estudantes), enquanto a reitoria funcionava (e funciona) em quase total normalidade. Era uma greve que embora justificada era difícil de fazer o debate pela conjuntura que se apresentava. E mesmo com a função de direção política, o DCE apoiar a greve nessas condições seria como aderir, dentro do tal “conjunto dos estudantes” a um vanguardismo inócuo e isolado da real posição dos estudantes, mesmo os mais esclarecidos em relação a greve.
De certa forma o DCE segue sendo pressionado por duas correntes de pensamento, igualmente despolitizadas, uma que pede uma ação efetiva CONTRA a greve e outra que o DCE seja A FAVOR DA GREVE. Os primeiros, em sua grande maioria bem-intencionados e até mesmo inocentes, não percebem que a “culpa” da greve não é dos servidores em greve, mas do governo federal que não teve habilidade política (ou mesmo vontade política) necessária para dialogar com os servidores, apostando na desmobilização e na divisão interna evidenciada em qualquer votação da FASUBRA. O segundo grupo, com inocência de alguns e mal-caratismo da maioria, pensando apenas em sua auto-construção enquanto grupo político, faz uma critica vazia ao DCE. “O DCE não apoia a greve pois é pelego do governo”. Ora, se a Direção do DCE quisesse fazer o jogo do governo, alimentaria as posições do primeiro grupo, criaria um inconsequente ódio entre as categorias e enfraqueceria o movimento grevista. Todos sabem da identificação ideológica de parte da direção do DCE com o que resta na minoritária esquerda do PT, nunca isso foi escondido de ninguém, diferente de grupos ligados a partidos que mentem de maneira descarada para os estudantes se dizendo apartidários. As posições do DCE não são pautadas por governos ou partidos, são construídas internamente e em conjunto com os estudantes, sejam organizados em entidades e coletivos ou não.
A posição em relação a greve nunca foi contrária, pois o que interessa é que os Técnicos Administrativos em Educação saiam vitoriosos de sua mobilização o mais rápido possível, voltando assim o RU e a Biblioteca o quanto antes e a educação sendo fortalecida. Porém fazer a critica necessária é uma forma de fortalecer a luta: expor como expôs o Conselho de DAs que a greve foi construída sem diálogo com os estudantes não deslegitima a greve, mais deixa um claro recado aos TAEs que os estudantes querem ser ouvidos. E não por uma posição egoísta nossa como alguns chegaram a falar, mas por estar juntos na defesa de uma educação de qualidade e com servidores valorizados.
A greve dos professores segue em clima de mobilização, na Assembleia de ontem ficou claro que não há ainda mobilização suficiente para uma greve. Não pelo pouco público, mesmo que todos os professores quisessem greve, talvez a presença dos docentes não fosse maior. Temos o péssimo hábito de esperar que alguém lute pela gente, nas mobilizações do transporte eramos apoiados por 20 mil estudantes, mas 70 iam nas Assembleias, 500 nos atos e protestos. Me preocupou o alto número de abstenções na votação final, 11 professores, contra 21 votos a favor. É sabido que nem toda a categoria docente quer a greve, e isso é um árduo desafio que a Direção da SEDUFSM terá para os próximos dias. Conhecendo o professor Rondon, presidente da entidade, amigo e orientador de TCC, sei que não entraria numa aventura sem ter apoio da categoria. Discordo e já discordei de muitas posições do professor, mais sei de sua postura ética, responsável e principalmente comprometida com a defesa da educação.
Quanto ao DCE, ainda falta muito para que se faça um bom trabalho de esclarecimento sobre as greves, e isso sem cair em discursos oportunistas e esquerdismos baratos, procurando representar os estudantes da melhor maneira. As próximas semanas terão que ser de muito trabalho!
José Luís Zasso
Estudante de Jornalismo da UFSM
Zasso, me ponho no grupo que critica a greve, pois entendo, que dessa forma, com a intensificação do atrito entre docentes e estudantes, nunca teremos uma educação pública de qualidade. Pois sabemos, que querendo ou não, a greve vem para atrapalhar o ano letivo, isso é fato. Mas atenção, não estou dizendo que os servidores têm a intenção de fazer a greve só para atrapalhar, não e isso. Eles têm seu direito de reivindicar, para qualquer que seja o motivo.
Mas também entendo que, obviamente, a culpa não é dos servidores, e discordo quanto tu diz que somos inocentes e não sabemos que essa mobilização é feita porque o governo não soube dialogar com a classe de servidores. Seria muita ignorância pensar que os docentes trariam uma greve que atrapalharia o andamento da instituição sem motivos suficientes.
Mas eu apenas crítico a indecisão, ou falta de interesse por parte de alguns de nossos professores, sem generalização, claro. Pois penso que não sou apenas eu que acho isso, e sim muita gente – como acompanho nas redes sociais – TODOS querem uma decisão logo, pois se é para termos greve, que a façam, para que atrapalhe o menos possível o ano letivo na UFSM.
Obrigado!
Joelison
12/08/2011 em 15:12
Bem Zasso,
Faço parte de um dos grupos políticos aos quais a postura em relação a greve dos servidores técnico-administrativos é de apoio; postura essa que me leva a acreditar que pela somatoria da contradições que a educação pública vem vivenciando hoje, com a crescente política de precarização e privatização através dos programas do governo REUNI/PROUNI/SINAES/ENADE e as atuais MP 525 e PL 1749 é de extrema importância nos colocarmos ao lado dos servidores e docentes na discussao cotidiana sobre como estes programas vem tento manifestações em nosso cotidiano, tomando ações concretas para aglutinarmos os estudante juntos a essa luta e a realizar enfrentamentos a essa política.
Apoio a greve por entender que é uma tautologia apoiarmos a pauta de reivindicações dos servidores, mas não apoiar o movimento que faz com que a categoria dialogue e exiga respostas em torno de suas pautas. Vimos no Conselho de DAs, o qual a atual gestão do DCE fez uma avaliação de carater governista da greve dizendo que a mesma não era efetiva e levando os estudantes a acreditarem que o movimento estava equivocado. Ora, dessa situação duas coisas é preciso situar:
- a primeira é de que somente a base dos servidores pode definir a forma de mobilização a qual o sindicato irá organizar as suas pautas, articulações com outros setores sao necessárias, porém a construção se dá primordialmente dentro do proprio movimento (ou teriamos que pedir permissão aos servidores e docentes para ocupar a reitoria como o fizemos em 2007?, ou para irmos as ruas reivindicar redução da tarifa de onibus e transporte público gratuito?);
- o segundo elemento que gostaria de trazer a discussão é de que política se constroi dentro do que é possivel realizarmos mas sempre perspectivando um horizonte histórico, quero dizer com isso que se afirmarmos que não nos colocamos a apoiar a greve por conta de que os estudantes nao estao a par do que ela significa, mesmo entendendo que ela se coloca na luta pela educação pública, horizonte historico do Movimento Estudantil, estamos deixando de construir projetos politicos e sim construindo o que Gramsci definia como a pequena politica, a politica taticista que não perspectiva um horizonte claro de construção, mas sim a manutenção de uma posição sem transformação nenhuma de nossa realidade.
(Essa politica que nao considera que o desenvolvimento da consciencia social se dá a partir da forma como intervimos frente as contradições da realidade. Se nos situamos frente a realidade, dialogando sobre suas contradições e tentando-as superar desenvolvendo nossa analise critica da realidade e consequentemente avançando em torno de nossa consciencia, ou se naturalizamos as contradições e consequentemente nos tornarmos sujeitos que nao perspectivam o horizonte de transformação da realidade, mas sim sujeitos que se amoldam a ordem.)
Ora, essa pequena política, a qual vivenciamos no planalto, também vem sendo manifestada pela atual gestão do DCE, a qual justificou na despolitização dos estudantes a falta de posicionamento de sua gestão frente a greve dos servidores. Longe de achar que é uma postura ingenua, infantil, penso que é uma postura que não se coloca a dialogar com os estudantes sobre as contradições que a universidade vem enfrentando por dois motivos principais e que levaram ao DCE a nao apoiar a greve: o primeiro deles é de não se colocar como um DCE de esquerda combativa e de luta por entender que isto acarretaria um menor número de votos nas próximas eleições para a entidade e acabaria por atacar a lógica de se manter como gestão ad infinitum do DCE, o segundo ponto é de que ao se colocarem a discutir a greve e os motivos que a levaram a acontecer junto aos estudantes caso saissem em defesa da mesma, teriam que explicitar que os motivos da precarização da universidade pública é a politica a qual o governo de Lula/Dilma/PT tomou de reboque de FHC para o ensino superior (indico para quem quer saber mais, a leitura de textos do professor Roberto Leher), o que os levaria a confrontar as posições do Partido o qual constroem.
Penso que em se tratando de movimento estudantil, direção politica de uma entidade, o Zasso faz do texto acima um texto politico ao qual necessitamos atacar frontalmente. Defendo um DCE que se coloque a disputar os rumos politicos da universidade e da sociedade e para isso necessita ter um papel de dialogar com os estudantes, desenvolvendo neles a analise critica da realidade e a necessidade de serem sujeitos historicos de sua realidade assim como se colocar acima de qualquer interesse partidario que fira as necessidades da base estudantil.
Defendo um movimento estudantil de luta e combativo que se coloque junto a greve dos tecnico-administrativos e das lutas dos movimentos sociais, não um movimento estudantil que nega a critica a politica de governo que vem sendo defendida e deixa de organizar espaços com os estudantes sobre a atual conjuntura da luta de classes. Um movimento estudantil que situa os estudantes nesta luta de classes fazendo com que tomem atitudes politicas para transformar e organizar nossa educação e nossa sociedade por outras bases, que não as do lucro e da exploração. Defendo um movimento estudantil que não se amolde a ordem e que se coloque a sonhar e construir futuros junto aos estudantes, não negligenciando-os ou tratando-os como seres apoliticos, mas sim como seres que podem e devem transformar essa realidade.
É por isso, que não tenho acordo nenhum com a análise taticista que o autor do texto acima faz, bem como a análise que DCE faz da greve dos servidores tecnico administrativos e me coloco a apoiar a greve e a luta em torno de outro projeto de educação, sempre em defesa de uma universidade pública, gratuita, de qualidade e referenciada nas necessidades e na luta dos trabalhadores!
Todo o apoio a greve dos servidores! Todo apoio ao movimento estudantil de luta e combativo!
Guilherme Lovatto
12/08/2011 em 20:39
Joelison,
como eu falei no texto, havia muitos estudantes esclarecidos que não eram a favor da greve, ou da greve desse jeito, e essa opinião foi levada em consideração. Uma coisa é debate raso sobre a greve, a favor ou contra, outra é o debate com argumentos. Quando a gente faz esse tipo de raciocínio como o teu, as coisas tendem a melhorar, a própria greve pode ser melhor para todos (ou menos prejudicial, no curto prazo). Em relação a demora, aí não tem jeito, a estrutura do movimento sindical é essa mesmo. E ainda existe, mesmo que longe da ideal, uma negociação com o governo. A SEDUFSM vai ficar fazendo esse jogo mesmo, avalia proposta, vê a conjuntura nacional. Surge fato novo, avalia outra vez, vê o que outras universidades acham.. Isso é para não correr o risco de ter uma opinião isolada. Como a UFT, por exemplo, que tá fazendo greve sozinha…
P.S: Nessas horas se percebe a falta de articulação e a distância da UNE, hoje é impossível que a entidade puxe alguma mobilização nacional, seja qual for…
jlzasso
12/08/2011 em 19:42
acho que o autor do texto poderia fazer essa análise frente aos grupos que ele caracteriza como “segundo grupo, com inocência de alguns e mal-caratismo da maioria, pensando apenas em sua auto-construção enquanto grupo político, faz uma critica vazia ao DCE”.
acho que no conselho de DA’s tu não faz essa crítica Zasso, sabendo que tua argumentação não se sustentaria, pois a gestão atual do DCE é quem situa uma crítica vazia e superficial, querendo avaliar os processos sem tocar no motor dessa política, o governo Lula/Dilma PT.
Acho que essa posição deve ser colocada em espaços democráticos, onde os diferentes grupos podem fazer o posicionamento e explanar as contradições, não em um texto razo como esse. Por fim, o DCE é a entidade representativa dos estudantes, não o comando de greve. É essa entidade que deveria dialogar com os estudantes, porque o DCE não faz isso? não seria pela política de consensos que quer gerar nos estudantes?
Anônimo
12/08/2011 em 20:46