Arquivo para agosto 2011
Greves e algumas considerações
É bom ressaltar que o texto que escrevo aqui é uma opinião pessoal e não uma opinião do DCE da UFSM, embora eu faça parte da gestão. Necessário também dizer que o texto não tem a pretensão de ser uma análise de conjuntura da greve ou do Movimento Estudantil, longe disso, para isso seria necessário um texto bem mais denso em teorias, não é objetivo agora.
Acompanhei ontem a Assembleia Docente na UFSM. Talvez algo lógico e que eu nunca havia me dado por conta é quem são os professores que estão na linha de frente do processo de mobilização pela categoria docente, independente de greve ou não. Os professores que ontem votaram por intensificar a mobilização são os mesmos professores que estão sempre em luta pela educação, independente das divergências políticas entre eles. No tempo que eu estou na diretoria do DCE, são os mesmos e poucos professores com quem os estudantes sempre puderam contar para a defesa de nossas pautas e para a construção de uma universidade diferente, mais democrática, mais participativa e mais voltada para a transformação social. Nomes como Clóvis Guterres, em que a história pessoal fala por si, e mesmo professores mais jovens, mas igualmente de muita luta e sabedoria, como o professor Diorge Konrad e o professor José Luiz de Moura Filho (Zeca)
Em relação a greve dos servidores tínhamos uma situação em que houve uma greve deflagrada numa conjuntura interna do movimento sindical da categoria de divisão sobre as forma de luta, divisão a nível nacional e refletida em Santa Maria. Quando foi levada a questão ao Conselho de DAs, o DCE firmou a posição, e disso não se pode abrir mão, de que a greve é um direito. Se começarmos a questionar o direito de greve pensando apenas na nossa comodidade, vamos percorrer um caminho muito perigoso, caminho que os Estados Unidos escolheu e hoje enfrenta grande crise onde os trabalhadores não tem direito algum. Uma boa indicação de leitura é o Trinta anos atrás hoje: o dia em que a classe média morreu, do escritor e documentarista Michel Moore.
Porém era uma greve onde a maioria dos estudantes via apenas serviços como RU e Bibliotecas fechados ( serviços e direitos, afinal a Assistência Estudantil é um direito tanto quanto o direito de greve de qualquer trabalhador, por mais que alguns gestores públicos tendem a considerar um mero favor aos estudantes), enquanto a reitoria funcionava (e funciona) em quase total normalidade. Era uma greve que embora justificada era difícil de fazer o debate pela conjuntura que se apresentava. E mesmo com a função de direção política, o DCE apoiar a greve nessas condições seria como aderir, dentro do tal “conjunto dos estudantes” a um vanguardismo inócuo e isolado da real posição dos estudantes, mesmo os mais esclarecidos em relação a greve.
De certa forma o DCE segue sendo pressionado por duas correntes de pensamento, igualmente despolitizadas, uma que pede uma ação efetiva CONTRA a greve e outra que o DCE seja A FAVOR DA GREVE. Os primeiros, em sua grande maioria bem-intencionados e até mesmo inocentes, não percebem que a “culpa” da greve não é dos servidores em greve, mas do governo federal que não teve habilidade política (ou mesmo vontade política) necessária para dialogar com os servidores, apostando na desmobilização e na divisão interna evidenciada em qualquer votação da FASUBRA. O segundo grupo, com inocência de alguns e mal-caratismo da maioria, pensando apenas em sua auto-construção enquanto grupo político, faz uma critica vazia ao DCE. “O DCE não apoia a greve pois é pelego do governo”. Ora, se a Direção do DCE quisesse fazer o jogo do governo, alimentaria as posições do primeiro grupo, criaria um inconsequente ódio entre as categorias e enfraqueceria o movimento grevista. Todos sabem da identificação ideológica de parte da direção do DCE com o que resta na minoritária esquerda do PT, nunca isso foi escondido de ninguém, diferente de grupos ligados a partidos que mentem de maneira descarada para os estudantes se dizendo apartidários. As posições do DCE não são pautadas por governos ou partidos, são construídas internamente e em conjunto com os estudantes, sejam organizados em entidades e coletivos ou não.
A posição em relação a greve nunca foi contrária, pois o que interessa é que os Técnicos Administrativos em Educação saiam vitoriosos de sua mobilização o mais rápido possível, voltando assim o RU e a Biblioteca o quanto antes e a educação sendo fortalecida. Porém fazer a critica necessária é uma forma de fortalecer a luta: expor como expôs o Conselho de DAs que a greve foi construída sem diálogo com os estudantes não deslegitima a greve, mais deixa um claro recado aos TAEs que os estudantes querem ser ouvidos. E não por uma posição egoísta nossa como alguns chegaram a falar, mas por estar juntos na defesa de uma educação de qualidade e com servidores valorizados.
A greve dos professores segue em clima de mobilização, na Assembleia de ontem ficou claro que não há ainda mobilização suficiente para uma greve. Não pelo pouco público, mesmo que todos os professores quisessem greve, talvez a presença dos docentes não fosse maior. Temos o péssimo hábito de esperar que alguém lute pela gente, nas mobilizações do transporte eramos apoiados por 20 mil estudantes, mas 70 iam nas Assembleias, 500 nos atos e protestos. Me preocupou o alto número de abstenções na votação final, 11 professores, contra 21 votos a favor. É sabido que nem toda a categoria docente quer a greve, e isso é um árduo desafio que a Direção da SEDUFSM terá para os próximos dias. Conhecendo o professor Rondon, presidente da entidade, amigo e orientador de TCC, sei que não entraria numa aventura sem ter apoio da categoria. Discordo e já discordei de muitas posições do professor, mais sei de sua postura ética, responsável e principalmente comprometida com a defesa da educação.
Quanto ao DCE, ainda falta muito para que se faça um bom trabalho de esclarecimento sobre as greves, e isso sem cair em discursos oportunistas e esquerdismos baratos, procurando representar os estudantes da melhor maneira. As próximas semanas terão que ser de muito trabalho!
José Luís Zasso
Estudante de Jornalismo da UFSM