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“¿Por qué no te callas?” e a campanha eleitoral no Brasil

com 5 comentários

Tenho tido pouco tempo para me dedicar ao blog, e faz um bom tempo que já pensava em fazer alguns comentários aqui sobre a campanha, a vontade reascendeu com o episódio ¿Por qué no te callas?”, ocorrido em um evento na França em que o candidato derrotado nas eleições presidenciais brasileiras, José Serra, ouviu a sonora expressão de um mexicano que estava na platéia.

No evento, Serra fez pesadas críticas ao governo Lula e ao PT, conceituou o Brasil como um país atrasado, fechado e anti-democrático. Foi um discurso nitidamente ressentido, o ex-governador e ministro, assim como em seu pronunciamento oficial após as eleições, tentou deslegitimar a vontade expressa pelo povo brasileiro nas urnas.

São manifestações não condizentes com o que se espera de alguém que se intitula um defensor do sistema democrático, mas não surpreendem. José Serra apenas levou para o exterior a baixaria da pior campanha presidencial depois da redemocratização. A eleição para a presidência da república foi vazia, despolitizada e concentrada em boatos e ataques pessoais.

Campanha Eleitoral

A democracia no Brasil foi restabelecida a mais de 20 anos, ao menos no campo macro-político, o país parecia ter atingido uma maturidade e a eleição deste ano tinha tudo para consolidar isso. Já no primeiro turno, a candidatura Dilma teve uma postura de transformar a eleição em um plebiscito sobre o governo Lula e seus mais de 80% de aprovação, mesmo sem experiência eleitoral (eleitoral, não política ou administrativa, onde Dilma tem muita história) ficou a cerca de 3% de vencer no primeiro turno, a estratégia foi válida e é legítima.

Poucos partidos tiveram de fato uma discussão política do momento, mas a inexpressividade eleitoral, social e a legislação não permitiram que essa discussão fosse ampliada, o PCB (Partido Comunista Brasileiro) é o maior exemplo disso. O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) tinha uma possibilidade maior disso, com o candidato Plinio de Arruda mais destacado na mídia e com participações nos debates, mas preferiu o discurso fácil e o oportunismo, além de ideias deturpadas.

Minimamente, a candidatura Marina Silva, do PV (Partido Verde) conseguiu inserir uma pauta durante a campanha, a questão ecológica, porém a campanha de Marina também não fez disso uma boa campanha, com uma visão simplista e senso-comum, os votos de Marina no primeiro turno (perto de 20% que forçaram um segundo turno) foram motivados por esse discurso, pelo voto evangélico, mas principalmente pela visualização de uma candidatura fora da divisão PT X PSDB das últimas cinco eleições presidenciais.

O Aborto e a Campanha do Segundo Turno

O segundo turno foi triste. Dilma começou comparando os governos dos dois partidos na disputa, Serra intensificou a baixaria, a candidatura do PT respondeu e a oportunidade de uma discussão de verdade acabou. A discussão mais emblemática foi a do aborto.

O aborto tem sido uma discussão eleitoral muito presente em alguns países, não é um tema a ser ignorado, mesmo que não seja central. O Brasil precisa deixar de hipocrisia e discutir o aborto e não há problema em se discutir durante um processo eleitoral, muito pelo contrário. A questão é como discutir, certamente não nos termos em que foram discutidos no Brasil.

A questão do aborto não é uma questão de ser a favor ou contra, é muito mais do que isso. A sociedade brasileira deveria ter discutido o aborto como questão de saúde pública, e daí formar uma opinião em relação à proibição, à descriminalização ou à liberação, isso não significa que os motivos morais e religiosos sejam de todo inválidos, o que eles não podem é serem usados de maneira torpe e enganosa.

Em público, Verônica Serra, mulher do candidato do PSDB, declarou que a candidata adversária era a favor de “matar criancinhas”, declaração deplorável, baixa. De maneira reativa, se levantou uma suspeita que a própria Verônica teria abortado, pegou mal e deslegitimou o discurso, mas fez parecer que Verônica, inegavelmente oportunista em suas declarações, seria também uma “criminosa”. Definitivamente, não era o debate sobre aborto que a sociedade brasileira merecia, em um país com mais de 90% de cristãos, os preconceitos deveriam ter sidos desfeitos, a campanha presidencial serviu para aumentar.

Não bastasse isso, a internet virou um campo fértil para a baixaria e para semeação de versões mentirosas: o Brasil retrocedeu na questão dos direitos humanos, a luta armada contra a ditadura militar virou terrorismo, a mídia vendeu a ideia de que controle social (em uma atividade que é concessão do poder público) é censura, os movimentos sociais foram abertamente tratados como organizações criminosas.

As declarações posteriores de José Serra mostram que a baixaria não terminou e que, provavelmente, este será o espírito do debate (ou da falta de) sem a presença popular do presidente Lula no Palácio do Planalto. Quem perde com isso não é Dilma, Serra, o PT ou o PSDB, é o Brasil como um todo e a democracia.

Escrito por jlzasso

06/11/2010 às 10:55

Publicado em Política

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5 Respostas

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  1. Zasso, qual seria o discurso oportunista e deturpado do Plínio?

    Mathias Rodrigues

    06/11/2010 em 13:38

  2. Mathias, acredito que dentre os candidatos à esquerda da polarização PT X PSDB, o Plinio é que teve um destaque maior, mas acredito também que o Plinio e o PSOL perderam uma grande oportunidade de politizar o debate…

    o Plinio mostrou um visão deturpada ao apresentar um programa democrático-popular, com reformas de base, defesa de educação e saúde públicas, e chamá-lo de socialista.

    o oportunista ao colocar Dilma e Serra no mesmo patamar, com isso Plinio ganhou votos de pessoas não identificadas com o PSOL ou com o programa do partido. Teve muito eleitor do Plinio, que no segundo turno votou no Serra.

    jlzasso

    06/11/2010 em 14:26

    • Quanto ao programa democrático-popular achei correto ter se apresentado assim. Não se apresenta um programa socialista revolucionário em uma eleição, pois isso tende ao ridículo (vide PCO). A tarefa dos revolucionários durante as campanhas é agregar companheiros à luta, essa sim revolucionária. Só que, para agregar, tem-se que (sim) medir o discurso. O Plínio não negou em nenhum momento que não adianta ganhar as eleições, mas também não se sectarizou ao se proclamar revolucionário.

      O Plínio não coloca Dilma e Serra no mesmo patamar. Se formos ler aquela entrevista em que disse que preferia que o Serra havia ganho, ele diz que a Dilma é um pouco mais progressista. O problema é que é pouco progressismo para muita cooptação (de UNE, CUT e MST). Na avaliação de Plínio a vitória de Serra terminaria com a cooptação e uniria os setores progressistas do PT à esquerda. Não tenho uma opinião sobre isso, mas não se pode criticar que ele queria que a direita ganhasse por ganhar, ele defende uma tática clara que passa pela não-cooptação de alguns setores.

      Mathias Rodrigues

      06/11/2010 em 14:52

      • sei que pela história pessoal do Plinio ele não coloca Dilma e Serra no mesmo patamar, mas a campanha colocou. De fato, e nisso a gente concorda, o governo Lula progrediu muito pouco dentro do que poderia ter progredido, mas manifestas intenções do governo de prograsso mais efetivo esbarraram todas no reacionarismo da imprensa, de setores da Igreja, e mesmo de aliados políticos, (vide PNDH3) afinal não podemos esquecer que o governo Lula foi um governo de composição e não um governo de esquerda.

        Em relação a tal cooptação, eu discordo. É complicado falar da UNE (mas o problema aí é a direção majoritária da UNE), mas tomamos o exemplo do MST. Não houve um plano verdadeiro de reforma agrária, mas dentro da disputa real dada no cenário político, inegavelmente um governo do PT é melhor que um do PSDB, a base do MST (mais do que a própria direção) é toda petista, dado ao incentivo mais real que os pequenos agricultures tiveram com Lula (do Luz Para Todos ao aumento de recursos do PROFAF e a criação do Mais Alimentos).

        jlzasso

        06/11/2010 em 15:13

  3. Dois exemplos do discurso oportunista e deturpado do Plínio, após as eleições:

    - Dizer que achou a eleição de Dilma ‘uma lástima’, criticando-a com os mesmos argumentos preconceituosos e batidos que eram utilizados pela campanha de Serra.
    http://tvuol.uol.com.br/permalink/?view/id=plinio-eleicao-de-dilma-para-presidente-e-uma-lastima-04029A3364DCC923E6/mediaId=7297235/date=2010-10-31&&list/type=search/q=pl%EDnio/edFilter=all/ref=home/

    - Dizer o absurdo de que preferia que Serra tivesse sido eleito, para que os movimentos sociais sofressem repressão do governo e, assim, a esquerda se unisse.
    http://www.redebrasilatual.com.br/temas/politica/plinio-afirma-que-preferiria-governo-serra-ao-de-dilma

    Se ele preferia que Serra vencesse, por que declarou voto nulo? Outra coisa: vir ao final das eleições criticar quem venceu o segundo turno é oportunismo puro. Ele sabia que alguém teria que ganhar, não existe um jeito de os dois perderem. Sem falar que, com essas críticas, Plínio deslegitimiza e desrespeita o voto de 56% dos brasileiros que decidiram escolher um candidato.

    Não tenho absolutamente nada contra o PSOL. Pelo contrário: gostaria muito que o partido crescesse e se consolidasse como oposição, ocupando o espaço que hoje está com o conservadorismo do PSDB. Respeito e admiro pessoas como a Luciana Genro e a Heloísa Helena, que são batalhadoras. Mas o Plínio e seus discursos simplesmente não me descem pela garganta.


    Zasso, parabéns pelo texto. Ficou muito boa tua análise dessa campanha! Abraços!


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